domingo, 21 de agosto de 2016

O Poeta maldito, expurgo final.

"E o aberto olhar vidrado da funesta
Ave que representa o meu tinteiro,
Vai-me seguindo a mão, que corre lesta.
Toda a tremer pelo papel inteiro.

Dizem-me todos que atirar eu devo
Trevas em fora este agoirento corvo,
Pois dele sangra o desespero torvo
Destes versos que escrevo."
(Alphonsus de Guimaraens)

Escroto, cuzão, alma danada a perdição
Doentio, me faz mal perto de ti ficar
Embrulha-me o estomago o seu falar
Os seus erros estão aqui todos na minha mão.

Ei você mesmo ai, você seu cuzão!
Fez da vida essa desordem sacra
Fez da dor seu interior essa desgraça
Vem perdido, filho do fogo, meu doce irmão.

Foge, corre pelos campos seu culpado
Com a boca já formigando e com dor
Acido corroendo, vê o corvo? Tá danado!

O expurgo final sai esse espinho de sua boca
Paz, angustia, é a mesma coisa de ângulos diferentes
Esquece toda a auto-piedade, desce dessa alma louca.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Soneto desfeito

Às vezes o que nos resta é só a métrica de um bom soneto,
Às vezes nada resta mesmo, nem métrica nem soneto
Alguns diriam “nem lamento”.
Sorrio mesmo agora na contramão de todo tormento.

Tudo bem já rimei, e ainda estou na métrica 4 4, 3 3,
Tudo evoca o soneto, este se quer fazer outra vez.
Grito no momento não, não se faça soneto!
Se faça lamento irracional, grunhido analfabeto!

Vou parar por aqui a pena é do poeta,
A vida de quem a leva e muda como quer.
Mas pare agora pena, virarás obsoleta.

Enfim se fez soneto
E eu pequeno cuido do meu terreno,
Que cabe dentro do peito.


Thiago Mendes

Noite Belo Horizonte 2016