segunda-feira, 15 de junho de 2015

Homem do deserto

No chão a terra árida, o pó que se levanta contra o sol,
O tremular do horizonte, quente como brasa, abraça.
A pele seca, da cor ensolarada, sulcos enormes do tempo,
Já perdeu tudo e tudo reencontrou, contou.

Um dia ele veio calmo como luar, atento como mar,
É senhor de tudo, mas nada quis, livre entrou no rio.
Pediu um batismo, uma mão a abençoar,
Aquele que era tudo, nada quis levar.

Não sou digno, de suas sandálias desatar!
Gritou alto e sua voz dançou no ar.
Este é meu filho, a ele deve escutar.
Uma pomba falou, antes de se desmaterializar.

O sol se punha no mesmo horizonte,
Mas ele sabe que a vida mudou e mudará.
Pois viu Deus, nascido pra tudo salvar.
E descansou tranqüilo, pois não há mais nada imaginar.

Thiago Mendes
Belo Horizonte 06/2015

domingo, 14 de junho de 2015

Outro

Querem que eu me iluda com as formas ilusórias da estética do submundo,
Me querem tragável, amável aquele diz sim pra tudo.
Me querem outro, anulado, achando poder tudo, querem-me mudo!
Querem que eu fume, beba de tudo, descolado, malandro e vagabundo!

Querem que eu grite e não seja infantil, que eu represente o mundo adulto!
Me querem budista dançante, adepto da nova era já velha e de luto.
Me querem sulista, vanguardista, com grana pra um pouco de tudo.
Me querem da roça, de cavalo pangaré, tranqüilo e barbudo!


Thiago Mendes
Belo Horizonte 06/15

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Hoje!

Não uma rosa que morra,
Nada deve destilar essa lágrima.
Nenhum murchar, nenhum perder as pétalas.
Não hoje!

Nenhuma dor na alma,
Nenhuma tristeza que abafa.
Nenhuma flor fria, nenhuma agonia.
Não hoje!

Hoje, teu amor abre os caminhos,
Daqui até o infinito, enlaça os destinos.
Hoje além do corpo, do gosto,
Teu tudo, teu rosto o amor a gosto!

Hoje, meu abraço é corpo teu,
Teu corpo dorso meu!
Tudo é nascer, alquimia da vida,
Hoje no teu beijo, no teu corpo!


Thiago Mendes
Belo Horizonte 06/15

sábado, 6 de junho de 2015

Dês-apontamento

"Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso..."
(Fernando Pessoa)



Fui pra algum lugar fora de mim,
Fora do rumo das coisas normais e extravagantes,
Fora dessas asas agitadas no peito, mas fui
Partido pelo luxo de quem se embeleza.

Quanto tempo a simplicidade varreu nosso lar,
Embelezou nossa face, duas maçãs.
Quanto tempo faz que andamos juntos no pior do mundo,
E qualquer canto era encanto, cheio de leveza.

Queria excomungar essas luzes ofuscantes
Luzes ilusórias das ruas, dos bares.
Lustrar os sapatos com notas de 20 que não tenho,
Desfazer o deslumbre e, reatar a singeleza.

Não é só dor que sinto, desapontamento e embriagues,
Essas coisas baratas que se encontram em qualquer lugar.
Saio na porta, estou só, minhas previsões falharam!
Não grito, não choro, sinto um calor, um tremor sem beleza.


Thiago Mendes

BH, noite 06/2015