segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Humanos


O gosto de asfalto, cheiro de cigarros,
Vapor de álcool angustiante,
Bailarinas do sono.

Suor, lágrima salgada no canto da boca,
Líquido inebriante,
Deus do mar do outono.

Pés, mãos em desespero rápido,
Ar sufocante,
Humano do outro lado do oceano


Thiago Mendes

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Ilusão


O ser veste sua roupa,
Põe a mascara
Silencia a voz insaciável
Mastiga e engole a dor execrável.

Os olhos úmidos,
O contorcer da alma
Das vísceras do espírito,
Enjôo miserável.

No canto da boca o gosto amargo
A bílis expulsando um sulco asmático.
Nessa escuridão, passa o chão
Rápido pelas asas do imaginável.

No espelho o mesmo reflexo
Demônio fugido de um possesso.
No rosto a marca do tempo
Do túnel sóbrio e invariável.

Num instante do qual não se pode medir
O sorriso do palhaço quebra o espetáculo,
Fingido de dor, de ilusão
O chão reaparece na luz imutável.


Thiago Mendes

sábado, 18 de agosto de 2012

Variações sobre o poeta maldito: Segundo pensamento.


“Conjurei os verdugos para morder, na minha agonia, a culatra de seus fuzis. Conjurei as pragas, para afogar-me na areia, no sangue. Fiz da desgraça a minha divindade. Refocilei na lama. Enxuguei-me ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura.
E a primavera trouxe-me o horrível gargalhar do idiota. Ora, por último,
chegando a ponto de quase fazer o trejeito final, sonhei encontrar a chave do festim antigo, no qual talvez recobraria o apetite.”

“A caridade é essa chave. - Esta inspiração prova que tenho sonhado!”

(Arthur Rimbaud)




Há numa ilha isolada no mar do tempo,
Agruras pensantes, vozes tão falantes,
Apagam a esperança com canções de ébrios
Sóbrios meninos, de sonho renitente.

Há no solado da porta, carta atroz,
Escrita por mãos indigentes,
Pobre gente de espírito febril,
Que desencanta do espírito o que tem de potente.

Há numa instância eterna,
A esperança dormente,
Escondida sobre véus
Cegueira sobre toda gente,
Escondendo o brilho que se vai sutilmente.

Há uma dor em silêncio,
Que corrompe as gentes,
Lá longe no inconsciente,
Mordida feros do dia dormente.

Há nas lonjuras mais distantes
Poetas vacilantes,
Quebrando as canetas
Queimando os papeis,
Escondendo de toda essa gente doente.

A verdade que ninguém quer.



Thiago Mendes

Belo Horizonte, Inverno 2012

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Poeta maldito




“Antigamente, se bem me lembro, minha vida era um festim no qual todos os corações exultavam, no qual corriam todos os vinhos.
Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos. - E achei-a amarga. - E injuriei-a.
Armei-me contra a justiça.
Fugi. Ó feiticeiras. ó miséria, ó ódio, a vós é que foi confiado o meu tesouro!
Tudo fiz para que se desvanecesse em meu espírito a esperança humana.
Como um animal feroz, investi cegamente contra a alegria para
estrangulá-la...”

(Artur Rimbaud)



Poeta maldito


O meu mal dança a dança dos anos,
Ressurgindo no momento inoportuno, imprevisto,
Tudo faz para que esmigalhe a esperança.
É tudo visto, revisto. Penso... Reflito.

Assolam as bruxas do engano,
Deusas do sono,
Caçadoras de cobiça,
Mártires do plano.

Com o martelo de Thor em mãos,
Destilam seus raios,
Desventuram seus prantos,
Afogam-me nos seus pântanos vãos.

A brisa matutina acorda-me de repente,
Desenlaça as frias cordas de filtros de sonhos,
Acolhe o ínfimo delírio como verdade do intimo
E o recolhe das mãos do grande oponente.

Thiago Mendes

terça-feira, 22 de maio de 2012

Nas tuas...



É frio não só o tempo, ventura dos dias,
BR 381 nas curvas de sua ironia crua,
Que de tão belo o rio São Francisco insinua
Uma escuridão que a igreja de longe “iluminuras”
Tuas pobres ruas que como os rios deságuam
Te expões nua.

E eu na minha matinal amargura,
De onde tuas curvas, encaminhas,
Pra forca da alma humana húmus fibrilas
Foge. Enforcas não o teu espírito
Que de longe te assustas.

Achas nas margens humanas
Ainda um corpo que aqueça a alma,
Achas ainda uma vida nessa estrada
Nessa longa estrada que a vida,
BR 381 grande ironia.


Thiago Mendes

terça-feira, 20 de março de 2012

Efêmero



Cobrindo o sol com tua nuvem,
É assim que me encontraste,
No mundo perdido de alguém.

É assim que me vem,
O teu gosto
Pescoço que tem.

É com palavras que te tremem,
Com sussurros
Que espremem
O amor que há muito não tem.


Thiago Mendes